Você está vivendo a sua vida ou tentando alcançar a vida dos outros?

Você está vivendo a sua vida ou tentando alcançar a vida dos outros?

Por Flavia Andrade

Em algum momento da vida, quase todos nós já olhamos para alguém e pensamos: “Eu gostaria de estar onde essa pessoa está”. Pode ser diante de uma conquista profissional, de um relacionamento, de uma família, de uma aparência, de uma condição financeira ou simplesmente da sensação de que o outro parece estar vivendo uma vida mais interessante, mais organizada ou mais bem-sucedida do que a nossa.

A comparação faz parte da experiência humana. Observar o outro pode nos ajudar a reconhecer possibilidades, estabelecer objetivos e até encontrar inspiração. O problema começa quando deixamos de olhar para o outro como referência e passamos a utilizá-lo como medida para avaliar o nosso próprio valor.

É nesse momento que a vida pode começar a parecer insuficiente.

Quando comparamos a nossa trajetória com a de outra pessoa, geralmente colocamos lado a lado coisas que não podem ser comparadas de forma justa. Conhecemos profundamente as nossas dificuldades, inseguranças, dúvidas e momentos de fracasso, enquanto enxergamos no outro apenas aquilo que chega até nós. Vemos a conquista, mas não necessariamente conhecemos o caminho percorrido para chegar até ela.

E isso acontece não apenas nas redes sociais.

A comparação pode surgir em uma conversa entre amigos, em um encontro familiar, no ambiente de trabalho, na faculdade ou até mesmo dentro de nós. “Fulano já se casou.” “Ciclano já comprou uma casa.” “Ela já está formada.” “Ele conseguiu aquele emprego.” “Todo mundo parece estar avançando, menos eu.”

Aos poucos, podemos construir uma ideia de que existe uma espécie de calendário universal para a vida. Como se houvesse uma idade certa para estudar, se formar, trabalhar, casar, ter filhos, comprar uma casa, alcançar estabilidade e realizar determinados sonhos.

Mas a vida não acontece seguindo um único roteiro.

Cada pessoa começa de um lugar diferente, encontra oportunidades diferentes, enfrenta dificuldades diferentes e faz escolhas diferentes. Até mesmo pessoas que parecem estar vivendo histórias semelhantes podem estar atravessando experiências completamente distintas.

Por isso, estar em um lugar diferente do outro não significa necessariamente estar atrasado.

Talvez uma das maiores armadilhas da comparação seja transformar a trajetória do outro em uma cobrança contra nós mesmos. Em vez de perguntarmos “o que eu quero para a minha vida?”, começamos a perguntar “por que eu ainda não tenho aquilo que o outro tem?”.

São perguntas muito diferentes.

A primeira nos coloca em contato com os nossos desejos, valores e prioridades. A segunda pode nos colocar em uma corrida que sequer escolhemos participar.

É importante perceber que nem tudo aquilo que admiramos no outro é, de fato, aquilo que desejamos para nós. Às vezes, desejamos uma determinada conquista porque aprendemos que ela representa sucesso. Outras vezes, queremos determinada aparência, relacionamento ou posição profissional porque acreditamos que é isso que deveríamos ter alcançado.

E, quando não conseguimos, podemos interpretar essa distância como fracasso.

Mas será que é realmente fracasso não ter uma vida parecida com a de outra pessoa?

Ou será que estamos apenas tentando cumprir expectativas que nunca paramos para questionar?

Essa reflexão não significa deixar de ter objetivos ou se acomodar. Também não significa olhar para a própria vida e dizer que tudo está bem quando existem coisas que precisam ser transformadas. Reconhecer a própria trajetória não é desistir de crescer.

É aprender a diferenciar desejo de comparação.

Podemos olhar para alguém e pensar: “Isso me inspira”. E, a partir daí, construir um caminho próprio. Mas também podemos olhar e pensar: “Eu deveria estar vivendo isso também”. Nesse caso, talvez seja importante parar e perguntar de onde vem esse “deveria”.

Porque existe uma diferença significativa entre querer algo porque aquilo faz sentido para nós e querer algo porque sentimos que precisamos provar que também somos capazes.

A comparação constante também pode nos impedir de reconhecer as próprias conquistas. Quando estamos sempre olhando para o próximo degrau, aquilo que já alcançamos parece pequeno. Terminamos uma etapa e imediatamente encontramos alguém que está mais à frente. Conseguimos algo que desejávamos e, pouco depois, surge uma nova referência para nos mostrar o que ainda não temos.

E assim, a sensação de insuficiência pode nunca terminar.

Talvez seja necessário, então, mudar a pergunta.

Em vez de “por que a minha vida não é como a do outro?”, podemos começar a perguntar:

“O que eu realmente quero viver?”

Essa pergunta nos devolve para nós mesmos.

Ela nos convida a olhar para a nossa história, reconhecer o caminho percorrido, compreender o momento em que estamos e perceber quais escolhas realmente combinam com quem somos e com aquilo que desejamos construir.

Nem todo mundo precisa chegar ao mesmo lugar. Nem todo mundo precisa chegar ao mesmo tempo. E, principalmente, nem todo caminho que parece bonito quando observado de fora seria necessariamente o caminho que faria sentido para nós.

Talvez amadurecer também seja compreender que a vida não é uma competição.

Existe espaço para admirar o outro sem diminuir a si mesmo. Existe espaço para se inspirar sem se comparar. Existe espaço para desejar mudanças sem transformar a própria trajetória em uma prova de que você não é suficiente.

A sua história não precisa parecer com a história de ninguém.

Você pode reconhecer aquilo que ainda deseja construir e, ao mesmo tempo, reconhecer tudo aquilo que já construiu.

Porque, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja “onde os outros estão?”, mas:

“Estou vivendo uma vida que faz sentido para mim?”

E talvez seja justamente quando paramos de tentar acompanhar a vida dos outros que conseguimos, de verdade, começar a olhar para a nossa.