Por Flavia Andrade
Setembro chega trazendo novamente a cor amarela para as ruas, campanhas, escolas, empresas e redes sociais. Mas esta campanha precisa ser muito mais do que uma cor ou algo que se repete todos os anos. O movimento é um convite para falar sobre saúde mental, sofrimento emocional e, principalmente, prevenção ao suicídio de uma maneira responsável e sem julgamentos.
Falar sobre esse assunto ainda pode ser difícil, mas o silêncio também pode aumentar a distância entre quem sofre e quem poderia oferecer algum tipo de apoio. Por isso, esse espaço é importante. Não para encontrar respostas simples para uma questão tão complexa, mas para lembrar que sofrimento emocional merece ser levado a sério e que pedir ajuda não deveria ser motivo de vergonha.
Quando alguém passa por um momento difícil, nem sempre consegue explicar exatamente o que está sentindo. Às vezes, o sofrimento aparece no isolamento, na perda de interesse pelas coisas, em mudanças de comportamento ou em falas que demonstram desesperança e falta de perspectiva. Isso não significa que qualquer mudança seja necessariamente um sinal de risco, mas significa que precisamos aprender a olhar com mais atenção para as pessoas que estão ao nosso redor. Muitas vezes, estamos tão acostumados a perguntar “está tudo bem?” esperando ouvir um simples “sim” que esquecemos de realmente escutar. E escutar é diferente de dar conselhos, minimizar a dor ou dizer que existem pessoas passando por problemas maiores. Uma conversa acolhedora não resolve todos os problemas, mas pode abrir uma porta para que alguém perceba que não precisa enfrentar tudo sozinho.
É importante compreender que acolher alguém não significa assumir a responsabilidade de resolver o sofrimento daquela pessoa. Existem momentos em que a ajuda profissional é necessária, e buscar esse cuidado faz parte da prevenção. Psicólogos, psiquiatras, médicos e outros profissionais podem contribuir para que a pessoa encontre caminhos diante de uma situação de sofrimento.
Em casos de risco imediato, é fundamental procurar atendimento de emergência e não deixar a pessoa sozinha. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O mais importante é não tratar o sofrimento como fraqueza, exagero ou falta de vontade. Nem sempre conseguimos enxergar a batalha que alguém está enfrentando, e justamente por isso precisamos ter mais cuidado antes de julgar aquilo que não conhecemos.
Talvez o maior desafio do Setembro Amarelo seja fazer com que essa conversa continue quando setembro acabar. Porque a saúde mental não segue o calendário. A solidão não desaparece em outubro, a ansiedade não termina quando as campanhas deixam de aparecer e uma pessoa em sofrimento não deixa de precisar de acolhimento porque o mês mudou.
Prevenção também passa pelas relações que construímos, pela disposição de ouvir, pela coragem de perguntar e pela capacidade de reconhecer que ninguém precisa ter todas as respostas para oferecer presença. Falar sobre suicídio com responsabilidade é falar também sobre vida, cuidado, vínculos e possibilidades. E talvez seja essa a mensagem que precisa permanecer depois que o amarelo sair das campanhas: ninguém deveria precisar enfrentar a própria dor em silêncio.

